MORTE EM VENEZA
“Sabe… por vezes, penso que os artistas são como caçadores que atiram no escuro. Desconhecem o alvo e não sabem se o atingiram. Mas não podemos esperar que a vida nos mostre o que a arte é. A criação de beleza e pureza é um ato espiritual.” A Morte em Veneza (1971) de Luchino Visconti
A beleza por trás da obra do Visconti, é algo estarrecedor, as imagens conseguem penetrar e permanecer no nosso cérebro. Ao analisar obras anteriores, conseguimos compreender a obsessão de Visconti pela paisagem e pela forma como ela é evidenciada no filme, o que nos coloca perante uma verdadeira obra de arte. O zoom ao longo do filme evidência a fixação tanto do Gustav (Dirk Bogarde) quanto do Visconti no Tazdo (Björn Andresen), na verdade toda linguagem cinematográfica do filme destaca essa atração pelo Tazdo. O figurino é milimétricamente adequado a época, a paleta de cores com tons de nude presente no descurso de todas as cenas, o cenário escolhido reflete a aristocracia na qual Visconti estava inserido.
Embora viesse de uma família aristocrática, ele rejeitava os valores conservadores associados à nobreza, tornando-se comunista e filiado ao partido comunista italiano, algo paradoxal para alguém de seu contexto social. O Visconti conseguiu destacar isso no filme através do Gustav desconstruindo sua postura arrogante e superior ao longo da trama.
Morte em Veneza de Luchino Visconti, para além de suas belas imagens fala sobre paixão, amor, arte, relacionamento, sexualidade, fracasso, pandemia e é claro, morte.
Baseado no romance Del Tod in Venedig de Thomas Mann, o realizador de grandes sucessos como Leopardo (1963), Rocco e Seus Irmãos (1960), Obsessão (1942) e Terra Treme (1947), gerou conflitos na sua época por abordar um amor platônico de um homem para com um adolescente de 13 anos de idade.
Sendo um homossexual assumido na época, ele tratava frequentemente esse tema em seus filmes e também vivenciava um relacionamento com uma certa diferença de idade com o ator Helmut Berger, como tal qual no longa, tendo em vista sua obsessão em refletir sua vida pessoal nas suas obras, compreendo a motivação do realizador de abordar tal tema mesmo sendo polemico para alguns espectadores.
Já no inicio do filme vemos uma referência a Caronte, que na mitologia grega era o barqueiro de Hades, que carrega as almas dos recém mortos sobre as águas do rio Estige e Aqueronte, o que faz todo sentido com o desfecho da história.
O flashbacks é um elemento de uso frequente no longa e através desse elemento Visconti nos conecta ao passado de Gustav onde percebemos o motivo pelo qual o levou até Veneza. O interessante desses flashbacks é a sutileza das transições quase imperceptíveis em alguns casos, assim, associando o presente de personagem com o seu passado.
Seu fracasso como musico reflete um pouco sobre a sua falta de inspiração e de não encontrar beleza na vida, ao chegar em Veneza e se deparar com o Tazdo, o Gustav encontra tudo aquilo que procurava e não conseguia representar através da arte.
Notamos em diversos momentos alguns personagens com personalidades caricatas e maquilhagens com a base branca - elementos sempre ignorados e desprezados pelo Gustav- essa foi a maneira abstrata de atribuir a presença da morte no filme que está na Novela esta destacado como numa forma de entidade.
Essa entidade também representada pela pandemia de cólera, da fim ao trama na cena icônica onde Gustav morre na praia.
lucas de silva