CAROL

Lançado em 2015, “Carol” , de Todd Haynes, surge como uma joia rara dentro do cinema contemporâneo. Na Nova York dos anos 1950, Carol (Cate Blanchett), uma mulher elegante e refinada, encontra por acaso Therese (Rooney Mara), uma jovem aspirante a fotógrafa. O que começa como uma troca de olhares em uma loja de departamentos se transforma em um amor intenso, mas ameaçado pelo moralismo da época. Enfrentando um divórcio complicado, Carol vê sua sexualidade ser usada contra ela na disputa pela guarda da filha. Entre encontros furtivos e uma fuga pelas estradas dos EUA, o filme captura o desejo, a repressão e a possibilidade — ainda que frágil — de um final diferente.

Adaptado do romance The Price of Salt , de Patricia Highsmith, o filme resgata o espírito dos melodramas clássicos de Hollywood,  os reinterpreta e subverte códigos trazendo para o centro da narrativa um romance entre duas mulheres, algo impensável no auge do gênero nos anos 1950.

Não é a primeira vez que Haynes se apropria da iconografia cinematográfica para ressignificá-la. Em "Far from Heaven" (2002), o diretor já havia revisitado o universo de Douglas Sirk, mestre dos melodramas que, sob a superfície exuberante de seus núcleos saturados e composições sofisticadas, esboçava uma crítica feroz à hipocrisia da sociedade americana. Em "Carol", sua referência mais evidente é "Brief Encounter" (1945), de David Lean, mas com um desvio crucial: enquanto o filme britânico transformava o amor proibido em uma impossibilidade, Haynes faz o caminho contrário e insere na narrativa um horizonte de possibilidade, um rompimento com a norma.

Desde os primeiros minutos, a atmosfera do filme já denuncia sua intenção de desconstrução. A relação entre Carol (Cate Blanchett) e Therese (Rooney Mara) é construída na delicadeza dos gestos, no contato mínimo, nos olhares carregados de subtexto. Mas essa sutileza, longe de apenas remeter ao cinema do passado, é tensionada por uma linguagem formal inquieta. A fotografia de Ed Lachman rompe com a tensão do melodrama clássico: a variação focal, as fusões entre planos, as texturas manchadas e a luz estourada criam uma instabilidade visual que reflete o próprio percurso emocional dos personagens. O mundo material parece se dissolver em prol desse sentimento nascente, e essa desfiguração do espaço reforça o embate entre desejo e repressão.

Se em “Breve Encontro” o amor era um ideal inalcançável, em “Carol” , ele se impõe como uma verdade concreta. A última cena é uma evidência clara disso: quando Therese percorre o restaurante em busca de Carol, a câmera abandona a rigidez formal e se entrega a um movimento flutuante, quase etéreo, revelando um Haynes disposto a se desprender do academicismo para encontrar algo mais vital. O que antes era sugerido como impossível se concretizar diante dos nossos olhos, tanto na mise-en-scène quanto no subtexto político.

"Carol" não é apenas um exercício de estilo ou uma homenagem elaborada ao passado. É um filme que compreende o poder da forma cinematográfica como ferramenta de atualização, de renovação – não apenas do melodrama, mas das próprias possibilidades de representação de um amor que, durante tanto tempo, foi relegado à margem.

lucas de silva

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